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Frederick Matthias Alexander

A Vida e Descoberta de F. M. Alexander

Trechos retirado de: The Alexander Technique and the String Pedagogy of Paul Rolland by Carol Porter McCullough 

Muito tem sido escrito, alguns em grande detalhe, sobre a vida de Frederick Matthias Alexander. A maior parte da vida de Alexander foi dedicada a ensinar aos outros sua técnica – uma técnica baseada em revelar a interferência que o uso inconsciente e habitual do corpo-mente tem sobre o funcionamento geral do individuo, e que este uso inconsciente pode ser colocada sob controle consciente. O melhor relato sobre a descoberta de Alexander está em suas próprias palavras no capítulo “Evolution of a Technique” de seu livro The Use of the Self, escrito em 1932, quatro décadas depois de começar a ensinar sua técnica a outros. Alexander escreveu “Evolution of a Technique” como um testemunho de como suas experiências práticas mostraram que “é impossível separar processos 'mentais' e 'físicos' em qualquer forma da atividade humana”. (Alexander 1932, 3).


Frederick Matthias Alexander nasceu na Tasmânia em 1869, o mais velho de dez filhos de um fazendeiro Australiano. Quando criança, ele sofreu problemas de saúde, sofrendo de doenças respiratórias e digestivas. Desde cedo demonstrou amor pelas artes e estudou música e teatro na adolescência, desenvolvendo uma paixão pelo teatro. Aos dezessete anos, ele deixou a vida rural e assumiu um emprego no escritório em uma empresa de mineração. Depois de desenvolver um desgosto por trabalhos de inclinação mercantil, ele decidiu se tornar um recitador profissional. Naquela época, um recitador profissional era uma espécie de show de variedades de um homem só (Alexander 1995, 223). É digno notar que Alexander escolheu uma carreira que exigia muito de seu sistema respiratório, uma fraqueza sua que o atormentava desde a infância.

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Alexander logo se estabeleceu como um elocucionista respeitado. Não demorou muito, no entanto, para que sua carreira fosse prejudicada por rouquidão. Isto prejudicou seu discurso durante os recitais, levando-o muitas vezes perder a voz no final da apresentação. Seus amigos o informaram que era possível ouvi-lo sugando o ar e ofegando enquanto recitava. O tratamento orientado por seus treinadores de voz e médicos foi o repouso. Durante esses períodos de descanso ele se recuperava e sua voz permanecia normal durante a fala. Mas o problema retornava insidiosamente assim que ele voltasse a recitar. Frustrado com os resultados dos tratamentos medicos disponíveis na época, Alexander decidiu investigar o que ele estava “fazendo” enquanto recitava, e ele descobriu que esse “fazer” era o que estava provocando o problema de voz.

Alexander se esforçou para descobrir o que era que ele estava “fazendo”. Ele se colocou na frente de um espelho e se observou primeiro durante a fala normal e depois durante o ato de recitar. Ele notou que enquanto recitava:

 

[ele] tendia a puxar a cabeça para trás, abaixar a laringe e inspirar pela boca de forma a produzir um som ofegante (Alexander 1932, 9).


Após uma observação mais aprofundada, Alexander descobriu que o mesmo padrão de movimento feito durante a recitação estava presente durante a fala comum, embora em menor grau. Ele percebeu que seu “uso” habitual presente nas atividades cotidianas se tornava exagerado em momentos de estresse ou excitação, no caso de Alexander a apresentação no palco.


No inicio de 1890, Alexander descobriu que seu “fazer” estava diretamente ligado ao hábito inconsciente na forma em que ele fazia o uso de si mesmo. Quando ele se conscientizou do que estava fazendo, Alexander tentou mudar seu hábito. Ele descobriu que não importava o quanto tentasse, ele não conseguia parar de puxar a cabeça para trás quando começava a falar. O jeito antigo parecia “certo” e a vontade de se mover de uma maneira que parecia certa e familiar era muito mais forte do que sua nova forma fundamentada. Este foi um momento crítico na evolução de seu pensamento. 


A incapacidade de mudar o que ele estava fazendo era um grande obstáculo. Foi por sua perseverança que finalmente levou à descoberta de que se ele primeiro “inibisse” sua vontade de falar, e nesse momento desse instruções para permitir que “sua cabeça vá para frente e para cima e suas costas para alongar e alargar”, ele poderia então parar seu antigo padrão habitual.  A pausa momentânea, denominada por Alexander como “inibição”, deu origem à sua capacidade de mudar a si mesmo e depois ensinar os outros a mudarem a si próprios.

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A inibição é um dos pilares fundamentais na Técnica Alexander. F. M. Alexander usou o termo Inibição em um sentido literal, definindo o ato de inibir como o de se abster conscientemente de um ato. Para parar o que está fazendo, deve-se estar plenamente consciente do que se está fazendo. A palavra eficaz aqui é “consciente”, fazendo com que o uso da inibição seja o oposto daquele de Freud, que usou o termo para significar repressão “inconsciente”. Freud acreditava que as ações de uma pessoa são governadas por memórias inconscientes ou reprimidas; que alguém é incapaz de escolher livremente um curso de ação porque está inconscientemente reprimido ou inibido. É o princípio da inibição consciente que faz da Técnica Alexander um potencial processo de aprendizagem.

A descoberta de Alexander foi confirmada por fisiologistas que vieram depois dele. Dr. David Garlick, um fisiologista Australiano, descreve a descoberta de Alexander em seu estudo The Lost Sixth Sense desta forma:

Alexander, embora não treinado como fisiologista, mostrou uma compreensão perspicaz de como o cérebro funciona. Nossa consciência, no córtex do cérebro, é onde surge nossa vontade de fazer algo. Depois disso, os caminhos vão para centros profundos no cérebro que formam o subconsciente ou inconsciente. Se nada for feito para impedir que os programas existentes sejam ativados, resultando em contrações musculares inadequadas, sucederá a maneira característica de uma pessoa de sentar, ficar de pé e fazer as coisas no geral.

 

Alexander encontrou a chave para impedir que esses processos inconscientes seguissem seus caminhos pré-estabelecidos. A significativa descoberta de Alexander de interromper padrões ja pré-estabelecidos era a de 'querer fazer' algo e depois inibi-lo, o que permite que uma nova ‘organização' seja desenvolvida subconscientemente enquanto consciente ou mentalmente dando instruções... Decidir não fazer é um exemplo do conceito de “inibição” de Alexander. Um fisiologista também usaria o mesmo termo em seu sentido científico (Garlick 1990, 17).

 

À medida que Alexander praticava os princípios de sua descoberta, a melhora em suas performances públicas foi tão impressionante que outros começaram a pedir sua ajuda. Seu sucesso em ensinar aos outros o que havia aprendido o estimulou a uma carreira no ensino. Seus alunos começaram a relatar melhorias não apenas em suas atividades profissionais, mas também na saúde e bem-estar geral, levando Alexander a ensinar pessoas fora do campo da atuação. Muitas dessas pessoas foram encaminhadas por seus médicos a Alexander para ajuda com problemas crônicos de saúde (Alexander 1932, 130).

 

Em 1899, Alexander mudou-se de Melbourne para Sydney, deixando seu irmão, Albert Redden Alexander, para ensinar sua técnica em Melbourne. Albert tornou-se parceiro de Alexander depois de voltar para casa da corrida do ouro Australiana. Seu irmão estava em uma condição de saúde enfraquecida devido a uma crise de febre tifóide.

Alexander queria um parceiro para ajudá-lo a desenvolver e explorar sua descoberta. F.M. ensinou Albert o que havia aprendido, e os dois irmãos experimentaram um com o outro e juntos elaboraram vários procedimentos e instruções, que foram incorporados à técnica (Jones 1976, 18).

 

À medida que sua prática crescia, a abordagem e a filosofia de F. M. Alexander se tornaram mais gerais, mudando do controle de voz e respiração para o controle da reação. Membros ilustres da profissão médica apoiaram Alexander, pois foi capaz de trazer resultados duradouros em pacientes com condições crônicas. Por insistência de um proeminente cirurgião de Sydney, Dr. Stewart McKay, Alexander fixou residência em Londres em 1904, para nunca mais retornar à Austrália.

 

Em Londres, Alexander começou a publicar panfletos sobre sua técnica, que naquele momento ele chamou de seu “Método de Reeducação Vocal e Respiratória”. Entre 1906 e 1910, publicou vários panfletos sobre educação respiratória (Alexander 1995). Ele chamou a atenção para seu trabalho escrevendo cartas aos editores de jornais proeminentes e começou a atrair a atenção do estabelecimento médico de Londres. 

 

Em 1910, Alexander publicou seu primeiro livro, Man’s Supreme Inheritance. Alexander escreveu mais três livros ao longo de sua vida, cada um com aproximadamente uma década de diferença.

 

Alexander viajou pela primeira vez para Nova York em 1914 a convite de Margaret Naumberg, fundadora da Walden School. Miss Naumberg foi fundamental na apresentação de Alexander a John Dewey (https://www.alexandercenter.com/jd/), o famoso filósofo americano. Dewey começou a ter aulas com Alexander em 1916, uma prática que continuaria pelo resto de sua vida. Ele escreveu a introdução de três dos quatro livros de Alexander. 

 

Dewey defendeu o trabalho de Alexander na comunidade educacional e científica. Apesar do total mal-entendido dos seguidores de Dewey e da rejeição de sua crença na Técnica Alexander, Dewey escreveu em 1939:

 

Minhas teorias do mente-corpo, da coordenação dos elementos do ser/ self e do lugar das ideias de inibição e controle da ação ostensiva exigiram contato com a obra de F. M. Alexander e em anos posteriores de seu irmão A.R., para transformá-las em realidades (Dewey 1939).

 

Em 1924, F. M. e seu irmão A. R. estavam fazendo estadias de quatro meses nos EUA (A. R. acabou se estabelecendo permanentemente em Boston em 1933 após a morte de sua esposa.) 

 

Durante o intervalo entre as duas Guerras Mundiais, Alexander e seus assistentes fundaram uma escola para crianças em Londres. A partir de 1924, Irene Tasker, uma professora treinada por Maria Montessori, dirigiu o que veio a ser conhecido como “a escolinha”, incorporando o ensino das crianças sobre o “uso de si mesmas” no currículo. A escola foi evacuada para os EUA em 1940, com Alexander acompanhando os evacuados. (Alexander foi dito ter estado na lista de alvos de Hitler como resultado de ser muito vocal sobre sua oposição ao der Fuhrer.) As tentativas de reviver a pequena escola em Londres depois da guerra não foram bem sucedidas.

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Ficou claro que, se os princípios de Alexander resistissem ao teste do tempo, bem como às acusações de que seu sucesso se devia ao carisma pessoal e não a princípios sólidos, outras pessoas teriam que ser treinadas para ensinar a Técnica Alexander.

 

Em 1931, o primeiro curso de formação de professores foi estabelecido em Londres. O formato exigia três anos de treinamento – um requisito que se estendeu aos cursos de treinamento atuais.

 

Após a publicação de seu quarto livro em 1941, The Universal Constant in Living, Alexander se envolveu em uma batalha legal na África do Sul. Em 1935, Alexander assistente, Irene Tasker (….colocar o link….) mudou-se para Joanesburgo e começou a ensinar a Técnica Alexander. Ela estabeleceu uma grande prática que incluiu muitos sul-africanos proeminentes, entre eles Raymond Dart, reitor da faculdade de medicina e distinto professor de

Anatomia da Universidade de Witwatersrand. Inevitavelmente, ela atraiu a atenção dos estabelecimentos médicos e de ensino.

 

Em 1941 Tasker conheceu o Dr. Ernst Jokl, um médico e educador físico alemão que na época era o diretor de educação física do governo sul-africano. Dr. Jokl solicitou um curso de lições de Tasker. Sentindo seu ceticismo, Tasker recusou, sustentando que a aceitação intelectual dos princípios envolvidos era necessária para que as aulas fossem bem-sucedidas.

 

Em 1943, o Dr. Jokl atacou violentamente Alexander e seu trabalho impresso e acusou qualquer um de apoiar Alexander de ser irracional, neurótico e mentalmente instável. (Isso pode ter sido parcialmente resultado do sentimento anti-alemão de Alexander.) Infelizmente para o Dr. Jokl, os apoiadores de Alexander incluíam alguns indivíduos altamente respeitados, incluindo o fisiologista Sir Charles Sherrington e Sir Stafford Cripps, Chanceler do Tesouro do governo britânico. 

 

Alexander sentiu que não poderia deixar o ataque do Dr. Jokl sem resposta e em 1945 moveu uma ação contra ele no Tribunal Sul-Africano, processando o Dr. Jokl por difamação de caráter. Em dezembro de 1947, Alexander ganhou o caso, bem como um recurso posterior dos réus (Jones 1976).

 

Alexander tinha mais de oitenta anos quando as batalhas legais terminaram. Ele havia sofrido um derrame durante esse período e sua recuperação e subsequente retomada de sua vida profissional foram uma surpresa para os amigos médicos de Alexander. Ele passou o resto de sua vida em Londres e continuou ensinando sua técnica até sua morte em 1955.

 

Alexander manteve uma relação de amor e ódio com a profissão médica ao longo de sua carreira. Embora nunca alegasse curar doenças específicas, Alexander sustentava com firmeza que muitas doenças crônicas eram o resultado do mau uso que os pacientes tinham de si mesmos. Ele estava constantemente repreendendo a profissão médica (impressa nos jornais da própria profissão médica!) por tratar os sintomas e não levar em conta a unidade psicofísica do paciente. Alguns membros da profissão médica eram menos do que tolerantes com as opiniões de alguém que consideravam um leigo arrogante. Exemplos de trocas escritas entre Alexander e a comunidade médica são abundantes. Muitas dessas trocas podem ser encontradas no volume publicado, Artigos e Palestras (Alexander 1995). Apesar de sua presença controversa, muitos médicos encaminharam seus pacientes para Alexander.

 

A Técnica Alexander resistiu ao teste do tempo. Já se passou um século desde que Alexander fez sua descoberta sobre a capacidade e a necessidade de cada indivíduo colocar seu eu “psicofísico” sob controle consciente. Muitos pensadores respeitados, incluindo o filósofo americano John Dewey, o vencedor do Prêmio Nobel Nikko Tinbergen (que em 1973 dedicou metade de seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel à Técnica de Alexander), o fisiologista Charles Sherrington, o anatomista Raymond Dart, os autores Aldous Huxley e George Bernard Shaw, e muitos artistas ilustres, atores, músicos e dançarinos saudaram a Técnica Alexander como uma das descobertas mais importantes dos últimos tempos. 

© 1996 Carol Porter McCullough

Referências:

Alexander, F. Matthias. 1995. Articles and Lectures. Ed. Jean M. O. Fischer. London: Mouritz

Alexander, F. Matthias. 1918 Reprint. Man's Supreme Inheritance. New York and London: E.P. Dutton

Alexander, F. Matthias 1932. Reprint. The Use of the Self. Los Angeles: Centerline Press. Original edition, New York: E. P.Dutton & Co., Inc. (Page references are to reprint edition).

Alexander, F. Matthias. 1941. Reprint. The Universal Constant in Living

Dart, Raymond A., 1996. Skill and Poise. Ed. Alexander Murray. London: STAT Books.

Dewey, John. 1939. The Quest for Certainty. New York: G.P. Putnam & Sons.

Garlick, David. 1990. The Lost Sixth Sense: A Medical Scientist Looks at the Alexander Technique. Kensington, Australia: by the author, the University of NSW.

Holland, Mary. 1978. A Way of Working. The Straad 89 (November): 621-629

Jones, Frank, P. 1976. Body Awareness in Action. With a foreword by J. McVicker Hunt. New York: Schocken Books Inc.

Jones, Frank, P. 1997. Freedom to Change. London: Mouritz.
Rolland, Paul. The Teaching of Action in String Playing. Revised edition. New York: Boosey and Hawkes. Excerpts from The Alexander Technique and the String Pedagogy of Paul Rolland

 

Sobre a autora:

Carol Porter McCullough held advanced music degrees from Florida State University and Arizona State University where she studied viola with William Magers. She was on the music faculty for five years at Illinois Wesleyan University, where she taught viola and was Director of the String Preparatory Department. She played in numerous orchestras, including the Grand Rapids, Kalamazoo, and Peoria Symphonies, the Arizona Opera Company and Sinfonia da Camera in Urbana, Illinois. She participated in music festivals across the U.S., including the Luzerne Center for Music, where she was a member of the Luzerne Chamber Players. Carol was a certified teacher of the Alexander Technique, completing her training with Joan and Alex Murray. She conducted workshops for the Alexander Technique for string players, musicians in general and other performing artists.

For more information about Carol McCullough's work, contact Brian McCullough (mail: brian@minncat.org ).

Alexander Technique: The Insiders’ Guide by Marian Goldberg

Alexander Technique Center of Washington, DC e-mail:  info@alexandercenter.com